Publicado por: Amanda Camasmie | Novembro 7, 2009

Não acredite em todos os especialistas

BernardMadoff

Bernard Madoff: o homem que aplicou golpe milionário em celebridades e executivos

Joãozinho insistia em repetir sua tese, mas ninguém acreditava. Recorria então ao argumento quase infalível: quem disse foi o maior especialista no assunto. Silêncio. Ele venceu o debate. Ninguém pesquisou, muito menos se aprofundou. Era voto vencido, afinal como saber mais que o maior especialista no assunto? Como desconfiar de alguém com tanto crédito?

Foi com o mérito de “especialista no assunto” que o ex-presidente da Nasdaq, Bernard Madoff, aplicou um golpe cuja soma estimada é de US$ 65 bilhões. Aplicada em executivos e celebridades (como os atores de Hollywood Keven Bacon e John Malkovich), sujeitos aparentemente nada ingênuos – ou talvez bem menos do que os amigos de Joãozinho -, a fraude é considerada a maior da história dos Estados Unidos.

Condenado a 150 anos de prisão por criar um esquema de pirâmide financeira, o financista Bernard Madoff disse que autoridades americanas não conseguiram brecar a enorme fraude em 2006 porque “fizeram as perguntas erradas”, descreve o jornal Folha de S.Paulo, na edição do último domingo.

Segundo o jornal, Madoff relatou que os investigadores da SEC (equivalente à CVM brasileira) não fizeram o trabalho básico “que teria revelado a fraude”.

Ninguém julgou necessário checar se os negócios eram verdadeiros. Em 2006, os fiscais chegaram a pedir o número de registro de Madoff. Depois disso ele disse ter certeza de que seria preso dias depois. Não foi. O número não foi checado e o fraudador atribuiu o episódio a sua boa reputação no mercado, relatou o jornal.

Depois de alguns anos, Pedro,  amigo de Joãozinho, recorreu à informação dada pelo colega para sustentar uma nova tese. Dias depois riram dele. “Entrei no Google e chequei que o você disse no encontro passado. Era mentira”, disse um integrante da reunião. Silêncio. Ele venceu o debate.

O novo grupo julgou não ter repetido o mesmo erro. Dessa vez checaram a informação. Ou pelo menos acreditaram ter checado. Até hoje, o grupo (e talvez uma parcela bem representativa da sociedade) ainda acredita que basta consultar o pai da busca para saber a verdade. Quem dera.

Publicado por: Amanda Camasmie | Outubro 30, 2009

Reconheça 20 coisas que muitos paulistanos ainda não aprenderam

Foto: Divulgação

Centro de São Paulo

Os moradores da cidade de São Paulo são famosos por sua pressa e impaciência. Dar bom dia? Pra quê? E esbarrar nos trauseuntes? Já virou rotina. Qualquer pessoa mais atenta que tiver a oportunidade de perambular por alguns poucos minutos nas ruas dessa cidade tumultuada, reconhecerá as 20 coisas que o paulistano ainda não aprendeu. Obviamente, o leitor encontrará mais tópicos para complementar essas observações. Por favor, compartilhe.

1. Ficar do lado direito da escada rolante quando não está com pressa. Caros conterrâneos, é tão difícil aprender que o lado esquerdo deve ficar livre para que os atrasados possam andar rápido?

2. Dar seta. Essa função está bem do ladinho do volante. Sem complexidade.

3. Deixar o pedestre passar. Principalmente em dias de chuva. Quantas vezes você não vê alguém todo atrapalhado com milhares de sacolas e aquele guarda-chuva pelitrapo (em português mais claro: esfarrapado) esperando horas para conseguir atravessar uma rua sem farol?

4. Responder “Não foi nada, magina”,  “Sem problemas” ou um “Tudo bem” quando alguém esbarra em você e pede desculpas. A resposta facial dos estressados é desanimadora. A maioria olha para sua cara, fecha o semblante e retoma sua introspecção.

5. Dar sinal quando observar alguém correndo para tomar ônibus. Não custa ajudar alguém que está atrasado. Nenhum ser humano do ponto de ônibus se comove ao ver uma pessoa tentar alcançar a condução em vão e reclamar esbaforida.

6. Responder educadamente ao mendigo. Lembrem-se de que apesar de encontrar-se em situação de extrema pobreza, o mendigo também é um ser humano. Deve ser respeitado. Muitas crianças recebem tratamento ainda pior. Tive o desprazer de observar o garçom de um bar jogando água em um morador de rua para que ele se afastasse do local.

7. Responder a um bom dia. Regra básica, não preciso nem comentar.

8. Sacolas de senhoras e senhores. Entendo que muitas vezes a pressa o impede, mas sempre que possível, tente colaborar e carregue as sacolas de idosos que estão nitidamente com dificuldades em subir as escadas.

9. Idoso em pé no transporte público. Muitos jovens não se dão nem ao trabalho de olhar quem está ao seu redor ou mesmo fingem que não viram. Prostram-se na cadeira e ficam até o seu destino.

10. Aprender a aguardar as pessoas saírem do metrô. Se todos fizessem isso, o processo seria muito mais fácil.

11. Falar ao celular. Tem gente que faz questão de praticamente berrar para “todos os interessados” que foi traída e que aquele ex-namorado não presta.

12. Gritar e fazer piadinhas com as pessoas no transporte público quando está em grupo. A ciência nem precisa comprovar. O comportamento de jovens em bando muda completamente. Pode apostar que aquele menino que fez uma piadinha com você no metrô não a faria se estivesse sozinho – ou pelo menos ela seria muito mais contida.

13. Usar termos (grosseiros) para demonstrar atração. “Gostosa” e “delícia” já tornaram-se eufemismo de abordagem nas ruas paulistanas. É preferível não citar as “inovações”.

14. Buzinar. É difícil entender que a buzina só precisa ser usada em casos extremos e que ela não fará o trânsito andar mais rápido?

15. Ouvir música no carro ou no celular. Ninguém está interessado em ouvir em alto e bom som o funk da última moda ou seja lá o ritmo de sua preferência. A cidade já é barulhenta o suficiente.

16. Reclamar. As pessoas acham feio reclamar de algo que está errado. Preferem observar um “corajoso” e concordar com a cabeça. Mas é claro, não adianta sair rodando a baiana. É preciso reclamar educadamente.

17. Empurrar. Muitos empurram propositalmente no transporte público e até nas ruas – onde teoricamente há mais espaço.

18. Mudar o lado do trajeto para deixar o outro passar. Incontáveis pedestres não dão passagem na calçada. Fazem de tudo para continuar andando reto, sem ao menos afastar-se um pouco para permitir a passagem. Escolhem um caminho e vão confiantes, tendo a certeza de que a outra pessoa mudará de lado.

19. Preconceito. É típico observar juízes de plantão medindo pessoas com roupas diferentes ou trejeitos que sugerem que a pessoa é homossexual, além de outros trauseuntes considerados fora do padrão. Talvez esse seja um dos piores defeitos não só do paulistano, mas do ser humano.

20. Comentar a roupa alheia e dar gargalhadas. Parece que não, mas quando estão rindo de você, é quase nítido. Cada um tem seu estilo. Muita gente pode achar o seu horrível ou sem graça.

E são tantos outros, não é? Difícil conviver em uma cidade onde todo mundo acha que é normal.

Publicado por: Amanda Camasmie | Outubro 15, 2009

Um branco pode ser negro. Não é uma questão biológica, mas política

"Ser negro é uma decisão política", diz antropólogo

"Ser negro é uma decisão política", diz antropólogo

Em meio a lágrimas pegou a esponja e começou a esfregar os braços freneticamente. Com os dentes cerrados não hesitou em aumentar o atrito.

Mesmo com o braço ardendo não parou. Desistiu só quando já não podia mais suportara dor. Conformou-se.  Aquela era sua cor. E não, ela nunca alcançaria a tonalidade branca de suas colegas e bonecas loiras.

Em uma outra época não muito distante, outra criança com a mesma pretensão arriscou um banho com cândida. Em vão.

Outros dois garotinhos africanos, contudo, nada tentaram. Afinal, ainda não entendiam muito bem a problemática no País. Trazidos da África pelo pai, mal falavam o português. Certo dia, ao chegarem da escola, questionaram o progenitor:

-Pai, o que significa macaco?
-Filhos, qual o motivo da pergunta?
-É assim que nos chamam na escola.

Triste para alguns (quem dera fossem muitos), normal para outros. Infelizmente a temática do negro no Brasil ainda está ausente nessas e em quase todas as escolas. “Não é fácil definir quem é negro no país”, declara o antropólogo Kabegele Munanga, professor-titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista concedida à Estudos Avançados e reproduzida pelo site Geledés Instituto da Mulher Negra.

Munanga também é vice-diretor do Centro de Estudos Africanos e do Museu de Arte Contemporânea da USP. Nascido em 19 de novembro de 1942 no antigo Zaire, foi o primeiro antropólogo formado na então Université Officielle du Congo, em Ciências Sociais (Antropologia Social e Cultural).

O antropólogo destaca que os estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostram que muitos brasileiros aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos. Ou seja, muitos brancos podem se dizer afro-descendentes. “Trata-se de uma decisão política”, diz Munanga.

“Em um país que desenvolveu o desejo de branqueamento [política governamental do século XIX para trazer imigrantes europeus e evitar a supremacia dos negros, que já somavam mais de dois milhões contra pouco mais de oitocentos mil brancos] , não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não.

Assim, Munanga explica que a questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos de negro e de branco têm um fundamento etno-semântico, político e ideológico, mas não um conteúdo biológico. Politicamente, os que atuam nos movimentos negros organizados qualificam como negra qualquer pessoa que tenha essa aparência. É uma qualificação política que se aproxima da definição norte-americana. Nos EUA não existe pardo, mulato ou mestiço e qualquer descendente de negro pode simplesmente se apresentar como negro. Portanto, por mais que tenha uma aparência de branco, a pessoa pode se declarar como negro.

No contexto atual, no Brasil a questão é problemática, porque, quando se colocam em foco políticas de ações afirmativas – cotas, por exemplo -, o conceito de negro torna-se complexo. Entra em jogo também o conceito de afro-descendente, forjado pelos próprios negros na busca da unidade com os mestiços.

“Se um garoto, aparentemente branco, declara-se como negro e reivindicar seus direitos, num caso relacionado com as cotas, não há como contestar. O único jeito é submeter essa pessoa a um teste de DNA. Porém, isso não é aconselhável, porque, seguindo por tal caminho, todos os brasileiros deverão fazer testes. E o mesmo sucederia com afro-descendentes que têm marcadores genéticos europeus, porque muitos de nossos mestiços são euro-descendentes”, diz Munanga.

Esses são conhecimentos essenciais para qualquer grade escolar. Quem sabe assim alguns negros deixem de tentar clarear os braços e outros brancos passem a clarear suas mentes?

Publicado por: Amanda Camasmie | Outubro 7, 2009

Produtor do filme sobre Lula quer tirar sua empresa do vermelho

Livro de nome homônimo: inspiração para o filme

Livro de nome homônimo: inspiração para o filme

A sinceridade é nobre e rara. Quantos cineastas diriam veemente: “Quero é ganhar dinheiro com o filme”. Fico feliz pela falta de hipocrisia e triste por ouvir isso de um cineasta brasileiro – principalmente quando lembramos que profissionais como ele carregam uma grande responsabilidade: a de primar pela qualidade e evolução de um cinema que vem crescendo a cada dia. E não preocupar-se tão somente com o lucro, equiparando-se a alguns filmes do modelo hollywoodiano.

Em entrevista à Folha, Luiz Carlos Barreto, produtor do filme “Lula, o filho do Brasil” e do sucesso de bilheteria  “Dona Flor e seus Dois Maridos” (com 12 milhões de espectadores), afirma que quer usar o longa sobre a história do presidente para tirar a empresa do vermelho.

“Em 45 anos de cinema, essa empresa é um botequim que está no vermelho”, afirma. E completa: “Estou me lixando para a eleição de dona Dilma [Rousseff] ou de quem quer que seja”.

Barreto espera que ao menos 20 milhões de pessoas vejam na telona um Lula mais humano, que em situação de extrema pobreza superou todos os obstáculos. Mas o cineasta destaca que o personagem mais importante do filme não é Lula, é sua mãe. Batalhadora e guerreira, Eurídice Ferreirade Mello morreu de câncer aos 65 anos, quando Lula estava preso.

No filme dona Lindu é retratada como uma mulher pobre, analfabeta, de grande intuição, inteligência, que consegue resguardar a família de um destino que estaria possivelmete reservado a eles. Ela não queria que nenhum dos filhos virasse nem bandido nem prostituta. O Lula é uma das consequências de dona Lindu.

O filme estreia em janeiro de 2010, ano de eleição presidencial. “Quando eu fiz um filme sobre o Pelé ou o Garrincha, ninguém me perguntou por quê. Era o mesmo fenômeno: Garrincha, meninozinho pobre, que caçava passarinho e virou quatro semanas de páginas do ‘Daily Express’. O que é que é o Lula se não uma mistura de Garrincha e Pelé na política? Ele está para a política como Garrincha e Pelé estão para o futebol”, destaca em entrevista ao jornal ao se defender de um possível viés político.

Se barreto votou em Lula? Ele conta que só uma vez, das quatro eleições. Na última votou no Serra. Mas declara: O governo Lula está entre os três melhores que este país já teve, os outros dois foram Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas.

O orçamento do longa metragem já ultrapassou os R$ 17 milhões de reais, segundo a colunista da Folha Mônica Bergamo – a marca o torna o filme mais caro do cinema nacional. Bergamo destaca que os R$ 10 milhões iniciais foram arrecados de grandes empresas, como Odebrecht, Volkswagen e Ambev.

O Lula é realmente querido, não? “O filme não vai criar um mito, o Lula já é um mito. Estamos mostrando que ele é um ser humano com qualidades, defeitos, capacidade de luta, de superação”, diz Barreto.

Se algum “erro” ou “deslize” entrar em evidência, Lula possivelmente engatará sua típica resposta: “Eu não sabia”. Mas acredito que não será o caso. Afinal, quem conseguiria ganhar dinheiro falando mal de alguém que “é o cara”?

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Publicado por: Amanda Camasmie | Outubro 2, 2009

Enem e a credibilidade da imprensa

Informações do Enem vazadas: Ministério cancelou a prova

Informações do Enem vazadas: Ministério da Educação cancelou a prova

A jornalista do jornal O Estado de S.Paulo, Renata Cafardo, foi escolhida por um anônimo para receber 180 respostas responsáveis pelo rumo de milhões de estudantes. Nesta última quarta-feira, 30 de setembro, às 15h30, Renata relata em seu blog que recebeu um telefoma cuja voz saía tremida, mas carregava convicção no seu propósito: “quero falar sobre o Enem”. Marcaram um encontro.

A jornalista, acompanhada por Sergio Pompeu, editor do Ponto Edu, blog do jornal sobre educação, e pelo fotógrafo Evelson Freitas, foi reconhecida por um homem que sentou-se prontamente à mesa do café, seguido de outro, que chegou poucos minutos mais tarde, com uma pasta cheia de papéis.

A repórter destaca que pediu para ver a prova, que segundo eles tinha sido vazada por alguém em Brasília, no Inep/Mec. Após folheá-la, incrédula, tratou de decorar o máximo de questões possíveis, até ser impedida de continuar. “Já viu demais”, disse um dos sujeitos.

Os dois homens pediram R$ 500 mil e tinham a convicção de que fariam o negócio com algum veículo de imprensa, afirma Renata. Eram homens simples que diziam não ser bandidos e que queriam apenas se livrar dos documentos rapidamente. O Estadão não aceitou e estampou a fraude no jornal.

A partir dessa história, podemos divagar por diversas questões. A primeira é a de que muitas pessoas não fazem ideia do que seja a imprensa. Há um ano, uma das pessoas mais esclarecidas que eu conheço me disse que a mídia ganhava dinheiro ao publicar tragédias. Felizmente não ganha. A mídia também não paga nada aos entrevistados, como muitos imaginam – pelo menos, na maioria das vezes.

Vejo outros personagens de meu convívio social repetirem insistentemente que a imprensa vive de defender interesses. E nesses interesses podemos inserir os corporativos, os políticos e por aí vai. Não posso negar que isso muitas vezes acontece. Infelizmente. Caímos sempre na fábula já obseleta, mas sempre fortemente presente em nosso cotidiano: O homem de tanto mentir, no dia em que contou a verdade, ninguém acreditou. Podem não existir veículos absolutamente isentos e transparentes. Mas existem muitos jornalistas, pode apostar.

Por quais motivos dois homens simples acreditariam poder ganhar R$ 500 mil com as provas do Enem? Arrisco três motivos: desconhecimento da máquina midiática – afinal, por que um jornal iria querer comprar um conteúdo que não poderia publicar? -, a crença na falta de credibilidade da imprensa brasileira ou terem sido meros instrumentos para algum (ou alguns) sujeito interessado em prejudicar o Ministério da Educação – ou melhor, ajudar.

Com maior acesso a informação, os cidadãos vão ficando cada vez mais desconfiados. Não acreditam na política, na imprensa, nas empresas, em seus parceiros, nos amigos. E nem neles mesmos. É a era da desconfiança. Não é à toa. Afinal, quantos não sairiam ganhando com essa fraude no Enem, se os humildes sujeitos tivessem atingido o alvo certo? Obviamente não muitos. Mas o suficente para tirar vantagem de milhões de pessoas.

Publicado por: Amanda Camasmie | Setembro 25, 2009

Ser honesto traz mais benefícios, revela estudo matemático

Foto: Stock.schngÉ provável que a maioria dos brasileiros preocupados com o lema ordem e progresso já tenha adotado uma visão conformista diante da realidade de seu País.

Seu João reclama da corrupção política estampada nos jornais matinais. Aninha se entristece ao ver o colega de trabalho alcançar o posto mais alto depois de ter prejudicado o ex-chefe.

Empresas enganam clientes e vice-versa – de um lado os preços abusivos e as tórridas e injustificáveis mentiras, do outro a famosa tática do “Então cancela”; estratégia que já se transformou no malandro jargão do consumidor que quer tirar vantagem.

Qual brasileiro nunca se perguntou: “De que vale a pena ser honesto?”. Se a análise for feita a longo-prazo, a resposta é: os honestos sobrevivem, é o que revela o estudo “O dilema do prisioneiro e a ética”, de Isaac Epstein, professor do centro de pós-graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo e autor dos livros Gramática do Poder (Ática, 1994) e Revoluções Cientificas (Ática, 1988).

O estudo mostra que tirar vantagem em todos os momentos não é a melhor estratégia, mesmo num universo governado por indivíduos movidos pelo egoísmo e pelo interesse próprio. Cidadãos estes que julgam promover o crescimento econômico.

Na pesquisa, Epstein ilustra um torneio com pesquisadores e especialistas da teoria dos jogos. No início os jogadores partiam traindo, pois iriam ganhar algo, caso o adversário fizesse o mesmo, e até muito mais, se o adversário fosse bonzinho.

Se o jogador por acaso encontrasse um traidor desumano, ele também deveria trair. Se, por outro lado, encontrasse um cooperador incansável e quisesse maximizar seus benefícios, deveria trair mais.

Se, porém, enfrentasse um participante que cooperasse até seu oponente traí-lo, e daí em diante nunca mais cooperasse, deveria cooperar.  A estratégia mais generosa indica a retaliação somente após duas traições do oponente. A característica  generosa facilita a cooperação dos jogadores a longo-prazo. O jogador egoísta não vai longe e acumulam pontos os jogares que cooperam.

Em outro exemplo de jogo, por 100 gerações os traidores desumanos dominam a população que se torna extremamente feroz. Uma minoria assediada sobrevive à beira da extinção. Mas quando os tolos, ou apenas justos, são quase extintos e não sobra ninguém para explorar, o jogo muda de direção. Os traidores começam a brigar entre si e se enfraquecem. Após 100 gerações a maioria muda dos traidores para os legais e, após 300 gerações, dos legais para os muito legais.

O estudo só veio comprovar algo que Jorge Ben Jor já sabia: Se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”.

Publicado por: Amanda Camasmie | Setembro 19, 2009

Pena de morte: o peso do julgamento

Broom: condenado à pena de morte por ter estuprado garota de 14 anos

Broom: condenado à pena de morte por ter estuprado garota de 14 anos

Por duas horas, os executores tentaram encontrar a veia de Romell Broom para aplicar a injeção letal. O esforço foi em vão. A execução foi adiada em uma semana, informou a BBC Brasil, na última quarta-feira, 16 de setembro.

Passadas as duas horas, o advogado de Broom solicitou que o procedimento fosse suspenso, descrevendo-o como “cruel”. O homem foi condenado pelo estupro e morte de uma jovem de 14 anos, em 1984,  no Estado americano de Ohio – região que já executou 32 prisioneiros.

Há oito anos, na noite do dia 25 de maio de 2001, instantes antes da injeção letal tocar suas veias, o negro Gary Graham, 36 anos, repetiu: sou inocente, minha morte é um assassinato praticado pelo Estado – cujo responsável era  George W. Bush, segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, reproduzida pelo site Hzeta Notícias.

Bush disse na época que estava confiante de que a justiça estava sendo feita. Gary foi condenado à morte por ter supostamente cometido um assassinato em 1981, em Houston, quanto tinha apenas 17 anos. A sentença foi realizada com o testemunho de uma única pessoa, que afirmou tê-lo visto durante menos de um segundo.

Além disso, Gary não teve acesso a um bom advogado. Alguns peritos, segundo o jornal, defendem que a testemunha pode ter sido influenciada pela polícia. Duas outras testemunhas disseram que o rapaz não havia cometido o crime, mas o advogado não as fez depor.

No Japão, em junho de 2000, nove prisioneiros condenados à morte podem ter sido executados secretamente. As famílias não conseguiram obter a lista oficial das execuções. Alguns pediram clemência, outros novos julgamentos, de acordo com o site Pena de Morte.

Constamentente, muitos brasileiros defendem com indignação a pena de morte.  Alguns dizem clamar por justiça. Outros destilam diariamente fortes argumentos: “Sustentamos assassinos e estupradores na cadeia. Seria muito mais fácil se eles morressem logo”. Se pudessem, esses “justiceiros”, além de juízes, seriam os próprios algozes.

O problema de querer fazer justiça é quando sua ignorância esquece de te dizer que você também pode estar matando um inocente.

Publicado por: Amanda Camasmie | Setembro 10, 2009

Brincando com a audiência

pao_e_circoTrajado com camiseta e shorts esportivos o homem brinca com uma bola ao passo que recebe bordoadas na cabeça.

O personagem de baixa estatura arranca do público algumas boas gargalhadas. Se ele é engraçado? Sim, muitos respondem. Hoje, é o que mostram esses telespectadores, existe muita graça em ver um anão participar de uma cena quase circense.

No mesmo programa, mulheres se sujeitam a testes inúteis e sem sentido – para explanar a triste situação, basta um exemplo: as garotas são puxadas e erguidas por uma máquina para comprovar a “resistência” de suas roupas íntimas (as famosas calcinhas).

Como se já não bastasse, uma das celebridades já conhecidas do programa  mostra que é possível se depilar com uma faca elétrica e revela como é divertido ser golpeado na cabeça por uma porta de geladeira.

Para quem mora no Brasil e não tem muito o que fazer num domingo à noite, não é difícil adivinhar que essas proezas são praticadas pelos colaboradores do Pânico na TV, veiculado pela Rede TV.

Caracterizado como infoentretenimento – que em tese deveria prover informação e apresentar entretenimento -, o programa utiliza elementos grotescos: pessoas fora de padrão da normalidade, como anões, deficientes, personagens ficcionais, temas chocantes e o tal do sensacionalismo, como bem sintetiza Mariana Bastian, em sua tese de mestrado em Comunicação.

E quem sou para contestar a “força” desse modelo, que inclusive é tema de uma tese (ou talvez muitas) de mestrado? Como brigar com os números de audiência – um dos mais altos da emissora? Apontariam o dedo para mim com a frase: “Ah, mas é engraçado. Para de ser chata”.

Assim como muitos consideraram engraçado o jornalista que tirou a roupa ao se declarar homossexual ao ator George Clooney, durante coletiva do filme “The Men Who Stare at Goats, no Festival de Cinema de Veneza. Eu não sou contra o humor. Pelo contrário. Mas existe um abismo entre bom humor e futilidade (ou inutilidade?).

Em um contexto diferente, mas em um formato bem similar, experimentamos, assim como os romanos,  a política do pão e circo , em que comida e diversão significavam liberdade e teriam como propósito acabar com os conflitos. Como sabemos hoje, tudo é ilusão. Enquanto você ri, os que estão fora (ou dentro) do picadeiro não acham a mínima graça.

Mas de que vale saber disso, não é? É mais fácil dar risada.

Hitler: arma da publicidade

"A Aids é um genocida", clama campanha para chamar a atenção

"A Aids é um genocida", clama campanha para chamar a atenção

Sensacionalismo ou qualquer que seja a arma apelativa, tudo vale, se o prêmio é a audiência.

No caso da propaganda, o quadro parece não diferir muito. Acontece que o caso retratado a seguir é digno de intensa análise: precisamos considerar que, apesar de polêmicas, as armas talvez possam justificar o troféu.

Uma campanha educativa alemã, focada na prevenção da Aids, tem gerado controvérsias por ilustrar Adolf Hitler fazendo sexo com uma garota. Sob a cena quase pornográfica representada pela figura do ditador, a campanha traz o mote  “A Aids é um genocida”. As críticas apontam para a falta de gosto e propriedade, mas os produtores não veem problema,  segundo reportagem da publicação alemã Der Spiegel (Veja o vídeo da campanha no link).

Os responsáveis pela campanha, idealizada pela Regenbogen (arco-íris), uma obra de caridade alemã que tem como meta educar o público sobre a prevenção da Aids, destacam que é a doença que está associada à imagem de Hitler e não os infectados.

No site da campanha, eles explicam que: “Até agora, 28 milhões de pessoas morreram. E todos os dias há 5.000 casos novos. É por isso que a Aids é um dos mais eficazes genocidas da história.”

“Sabíamos que a campanha era um pouco forte – queríamos que chamasse a atenção”. Segundo a associação, as campanhas anteriores com vegetais e os dizeres “Não dê uma chance à Aids” não surtiram o mesmo efeito. E finaliza: “A Aids é uma doença e não política”. Será? Não sei, mas a propaganda pode ser e muitas vezes é. Afinal, quem seria Hitler se não tivesse descoberto a propaganda como importante aliada?

Torcemos então para que  o efeito da publicidade ultrapasse o exctasy ditatorial e permita às pessoas gozarem de um mundo sem aids.

Publicado por: Amanda Camasmie | Setembro 2, 2009

Imprensa não manipula, diz ombudsman da Folha

Sérgio Rizzo, crítico de cinema (esq) e Carlos Eduardo Lins, ombudsman da Folha, parcipam do Ciclo

Sérgio Rizzo, crítico de cinema (esq), e Carlos Eduardo Lins, ombudsman da Folha, parcipam do primeiro dia do Ciclo Folha Cinema e Jornalismo

A Folha de S.Paulo e o Espaço Unibanco de Cinema deram início, nesta terça-feira, 1º de setembro, ao Ciclo Folha Cinema e Jornalismo, evento que celebra os 20 anos da função de ombudsman (profissional contratado para receber e fazer críticas, sugestões e reclamações de sua empresa jornalística)  do jornal Folha de S.Paulo.

Quem adentrou na sala 3 do Espaço Unibanco, na Rua Augusta, 1.475, às 19h30, teve a oportunidade de assistir a transmissão do longa-metragem Cidadão Kane (1941), drama e suspense do diretor Orson Welles, e à mesa redonda com Sérgio Rizzo, crítico de cinema da Folha e  Carlos Eduardo Lins da Silva, nono profissional a ocupar o cargo de ombudsman da Folha – o jornal foi o primeiro a adotar a função no Brasil, em 1989.

Cidadão Kane

O áudio, ora alto, ora baixo, quase passou desapercebido, frente a dois desenquadramentos de imagem na tela,  legendas sem leitura – cujo branco se igualava com as cenas (reproduzidas em preto e branco) -; ausência de legendas em alguns trechos e inversão de cenas do filme – o que nos deu a chance de antever alguns acontecimentos.

Alguns da plateia mostraram-se irritados com a qualidade da transmissão. “Vergonhoso”, gritou uma mulher ao fundo, enquanto o mediador pedia desculpas pelo erro na programação e problemas técnicos. Não acho vergonhoso, mas prefiro não entrar nessa seara.

Jornalismo

“Cidadão Kane foi considerado por pesquisadores, críticos e diretores de cinema como o melhor filme de todos os tempos em diversos Top 10″, destaca Sérgio Rizzo, crítico de cinema da Folha. Aos que gostariam de assistí-lo, Rizzo recomenda: a melhor versão foi produzida em DVD pela Warner. As outras versões não são tão satisfatórias, diz.

O filme também tem a intenção de mostrar que toda a apuração não é completa. Ela só preenche uma parte de um todo. Ou seja, nunca será possível conseguir total profundidade em qualquer assunto.

Cidadão Kane seria ainda a tradução do jornalista “vilão”, daquele que manipula e utiliza a comunicação como poder. “A imprensa não é vilão, mas também não é herói, como retrata o filme Superman – ; as duas visões são exageradas”, conta Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman da Folha.

Outro avaliação equivocada feita constantemente pelas pessoas e pelos próprios jornalistas é a de que a imprensa consegue manipular a população. “A imprensa não consegue manipular votos. A Globo não elegeu o Collor, as pessoas quiseram votar nele. Se a mídia tivesse esse poder, ela nunca perderia”.

Quando questionado sobre a briga entre Globo e Record, o jornalista revelou: “Quando assumi o cargo de ombudsman da Folha me comprometi a não comentar sobre outros veículos. Faz 20 anos que não vejo televisão, não sei o que foi falado. Eu sei que não é certo deixar de assistir ao telejornal, mas eu simplesmente não consigo”.

No cargo de ombudsman, Carlos reforça que só consegue analisar os problemas e necessidades do seu jornal e que para fazer isso de maneira ética não pode frequentar a redação. Não sabe o que é falado, nem quais são as estratégias de marketing. “Tenho uma sala, longe da redação, na qual vou duas vezes por semana para receber fontes e leitores”.

E por que jornalistas não costumam vir a eventos como esse, questionou alguém na plateia: “Eu não sei. Quantos daí são jornalistas?”Algumas tímidas mãos. “Pois é, acho que o jornalista não gosta muito de ser criticado. Infelizmente, muitos ainda continuam arrogantes”.

Confira toda a programação do evento no “Leia mais”

Leia Mais…

Publicado por: Amanda Camasmie | Setembro 1, 2009

O poder corrompe?

Foto: stock.xchngQuantas vezes, de alguma forma, você já não abdicou de seus valores? Seja quando precisou mentir para não deixar alguém machucado ou quando foi obrigado a perdoar um ato antes inaceitável. Sem contar outros (piores) exemplos, claro.

A vida nos prega peças. E a grande comédia é que a negativa entra em cena mais do que deveria – quando o protagonista não é você. Ou seja, é fácil dizer: Eu nunca teria feito isso. Como ele (a) teve coragem?

Desferir as mais tórridas palavras a outrem não é impossível a ninguém. Principalmente quando partimos do que julgamos ser um senso comum, mas na verdade é um lugar comum.

Explico, baseada em artigo da InfoEscola: senso comum são argumentos aceitos universalmente, sem a necessidade de comprovação. Por exemplo: “O homem depende do ambiente para viver”. Informações como estas já foram comprovadas historicamente, não precisam de justificativa.

Já o “lugar comum” traz informações obscuras, traduzidas nas conhecidas expressões:  “homem não chora” e “todo político é ladrão”. Além de preconceituosas, não têm base científica. Mesmo assim, muitos as consideram como verdades universais.

Se é uma verdade que todo político é ladrão, se você se tornar político também será?

Não arrisco acertar sua resposta. Mas a probabilidade é de que sim, de acordo com Lord Acton, historiador liberal inglês do século 19.  “Todo poder tende a corromper. Mas o poder absoluto corrompe sempre“, afirmou.

Para Jean-Jacques Rosseau, conhecido filósofo suíço e teórico político, todo homem nasce bom, mas o meio o corrompe. Já outros filósofos como Maquiavel, Moore e Hobes defendiam que todo o ser humano é mau por natureza e é preciso domesticá-lo, impor-lhe a lei e sujeitá-lo a penalidades.

E agora? Mudamos o meio ou as leis? Por ora, já que ninguém ainda encontrou uma solução, prefiro pensar que nem todo o político é corrupto ou de alguma forma desonesto. Só não achei ainda um que pudesse me provar isso. Alguém, por favor?

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