
Propaganda: ”20.679 médicos afirmam: ‘Luckies irritam menos”’; Em letras miúdas, no pé do anúncio: ‘’Sua proteção de garganta contra irritação e tosse”. No anúncio de Marlboro, um bebê proclama: ”Nossa, papai, você sempre tira o melhor de tudo… até de Marlboro”.
O homem leva o objeto à boca e deixa-o arder em fogo até alcançar uma temperatura que varia entre 835ºC e 884ºC. Respira em um intenso alívio. A combustão atingiu seu estágio completo.
Alguns companheiros reproduzem a mesma ação irritadiços. Estão todos nas calçadas que beiram a saída de restaurantes, bares e prédios comerciais. Unidos e envolvidos por uma prostração coletiva. Sentem-se humilhados e escorraçados de espaços que antes lhe ofereciam cantinhos só seus.
A lei antifumo, sancionada por José Serra (PSDB) e em vigor desde o dia 7 de agosto de 2009, promete uma rigorosa fiscalização para impedir que clientes fumem em locais fechados – e também abertos – de estabelecimentos comerciais.
No espaço aberto de um restaurante, observa-se um muro coberto por plantas separando a conversa de dois clientes. Um está na calçada. O outro sentado na mesa do estabelecimento. As plantas cortadas artesanalmente recebem algumas das 4.700 substâncias tóxicas do companheiro do lado de fora. Mas elas também não fogem às narinas do amigo sentado dentro do restaurante.
Em tom amigável, o garçom, que já devia carregar o peso dos seus 60 anos, declara: “Quando proibiram o cinto de segurança foi assim também. Todo mundo achou absurdo. Depois aceitaram”. O cliente dentro do restaurante responde: “Não sei não. E a Lei Seca? Cadê a fiscalização? Ninguém mais liga”.
O fumante volta da calçada pela 10ª vez. “Acho que vou parar. Assim vou acabar perdendo amigos”, diz em meio a risadas. E depois mais seriamente destaca: “Essa cerveja não me deixa parar”, e pede licença para voltar para a calçada”.
Conversando com o garçom na calçada o cliente é interpelado por um garoto de 12 anos. “Acende meu cigarro”. O cliente se nega. O garoto só tem 12 anos. O menino insiste e diante da reprovação dá um tapa no braço do fumante e vai embora. A criança só queria ter o seu “direito” de fumar. Mas ela só pode aos 18, não é?
Outras crianças
Não digo que não seja muito importante preocupar-se com crianças e adolescentes fumantes. Mas provavelmente nem fumantes e nem aqueles que nunca acenderam um cigarro (ou acenderam algumas poucas vezes) sabem quais são as verdadeiras consequências dessa indústria.
Não vou falar de fumantes passivos. Mas do fato de que a fumicultura emprega mão-de-obra infantil. “É comum relatos de professores da rede pública de ensino que atendem escolas nas áreas rurais indicando o déficit cognitivo de crianças que trabalham na lida com o fumo, além da evasão escolar”, destaca o advogado Guilherme Eidt, coordenador da Aliança para Controle do Tabagismo no Brasil e autor do livro “Fumo: servidão moderna e violações de direitos humanos”, ao jornal Brasil de Fato.
“As crianças trabalham em jornadas que chegam a mais de dez horas por dia na época da colheita da secagem do fumo. Elas absorvem quantidades de nicotina no organismo exorbitantes, semelhantes a uma pessoa fumante”.
Outro exemplo de irresponsabilidade, segundo o advogado, são as consequencias do Flumetralin, substância ativa do anti-brotante Prime Plus, vastamente comercializado para ser aplicado na fase do desbrote das flores e folhas de fumo.
O produto causa nos agricultores:
- Má-formação fetal
- Problemas congênitos
- É neurotóxico e cancerígeno
“Fosse outra a preocupação das fumageiras, o discurso de que as lavouras de fumo usam menos agrotóxicos do que as de tomate seriam mais comoventes. Mas essa é apenas mais uma faceta do interesse comercial que as orientam. Tudo para atender aos padrões de qualidade e exigência dos importadores de folhas de fumo e muito pouco, ou nada, para a saúde dos agricultores que, quando buscam atendimento em casos emergenciais, devem ir ao Sistema Único de Saúde (SUS), pois a indústria que exige e monitora a utilização dos agrotóxicos não oferece assistência alguma. Isso também não é surpresa, pois os fumantes acometidos por tromboangeíte obliterante , doença exclusivamente provocada pelo cigarro, que faz as partes periféricas do corpo necrosar (Junto com a dor do parto e de rim, é considerada uma das 10 piores dores) , também não têm assistência alguma”.
Dados brasileiros (Safra 2007/2008 – Fonte: Sindifumo)
- O Brasil é o segundo maior produtor de tabaco do mundo
- 182 mil pequenos produtores rurais trabalham nas fumiculturas
- 800 mil pessoas no meio rural estão envolvidas
- 354 mil hectares são plantados
- 720 mil toneladas
- R$ 3,8 bilhões de receita aos produtores
- Do total produzido, 85% destina-se ao mercado internacional, onde cerca de 100 países são abastecidos com o tabaco brasileiro
De acordo com o advogado, o Conselho Econômico da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas apontou recentemente falhas da legilação brasileira e cobrou do Estado uma resposta que seja adequada, eficaz e integral para garantir a prevenção da saúde pública, restringindo 100% o fumo em ambientes coletivos.
Alguém ainda acha que tudo isso foi só uma ideia que surgiu ao Serra para efeito de campanha? Tenho as minhas dúvidas. E acho que elas serão sanadas quando a lei virar moda em outros estados. Sérgio Cabral, no Rio, parece que também já vai aderir. Afinal, o segundo maior produtor de tabaco do mundo não quer – e não pode – fazer feio no cenário mundial.

Belo texto. Abordou a questão de uma maneira que eu, particularmente, ainda não vi. Suspeito que haja algum enfoque parecido no documentário “Fumando Espero” (http://www.fumandoespero.com.br/).
Essa questão trabalhista é importante, embora não tenha sido esse o maior enfoque da nova lei.
Mesmo fumante, concordo com a nova lei, mas acho que ela se impôs patamares irreais de fiscalização e isso vai tratar de desmoralizá-la um pouco.
Por: Marcio Hasegava em agosto 9, 2009
às 8:13 pm
[...] Alguns companheiros reproduzem a mesma ação irritadiços. Estão todos nas calçadas que beiram a saída de restaurantes, bares e prédios comerciais. Unidos e envolvidos por uma prostração coletiva. Sentem-se humilhados e escurraçados de espaços que antes lhe ofereciam cantinhos só seus. Leia +. [...]
Por: Lei antifumo? A quem mais o cigarro faz mal : Blog dos Alunos da Metô em agosto 11, 2009
às 11:01 am
Oi Amanda. É, realmente não dá para dizer que a lei foi uma medida eleitoreira, ela vai além disso. Sem dúvida é bastante rígida e autoritária, mas pelo menos protege quem não é fumante. Já o problema trabalhista, inclusive a exploração infantil, esse interessa ao sistema manter…
Por: Maíra em agosto 11, 2009
às 3:48 pm
Excelente texto. Trouxe informações que eu desconhecia.
E concordo com o Marcio: logo mais, a falta de fiscalização vai fazer a lei perder a credibilidade.
Por: Natalia Mello em agosto 11, 2009
às 10:22 pm
Otimo texto! =)
Amanda vc faz parte do Teto? pq eu vi seu texto ”era uma vez uma favela” .. e gostaria de saber se vc ja soube da coleta que vai acontecer dia 29.. se nao souber me mande um email.. e eu te explico!
Por: Ana em agosto 16, 2009
às 11:14 pm
A “nova” lei foi mais que desnecessária, já havia locais separados (causando sensação de desprezo, isolamento, para os fumantes), “área para fumantes”, quem ficava nestas áreas estava ciente de que alguém ali iria fumar!
Os fumantes estão iguais os negros, gays antigamente, sendo ignorados, jogados cada vez mais para os cantos e as pessoas ainda dizem: onde estão meus direitos?! Por que fumantes não podem ter direitos também?! São desumanos?! Até animais selvagens merecem direitos, os fumantes estão bem abaixo disto.
Por: Dr. Arnaldo Pavilha em setembro 5, 2009
às 2:30 pm
Só resta aguardar sermos respeitados algum dia (fumantes), ao menos os homosexuais; negros estão sendo mais respeitados, mas não totalmente, a sociedade podiaa fazer mais…..
Por: Dr. Arnaldo Pavilha em setembro 5, 2009
às 2:32 pm