Publicado por: Amanda Camasmie | outubro 15, 2009

Um branco pode ser negro. Não é uma questão biológica, mas política

"Ser negro é uma decisão política", diz antropólogo

"Ser negro é uma decisão política", diz antropólogo

Em meio a lágrimas pegou a esponja e começou a esfregar os braços freneticamente. Com os dentes cerrados não hesitou em aumentar o atrito.

Mesmo com o braço ardendo não parou. Desistiu só quando já não podia mais suportar a dor. Conformou-se.  Aquela era sua cor. E não, ela nunca alcançaria a tonalidade branca de suas colegas e bonecas loiras.

Em uma outra época não muito distante, outra criança com a mesma pretensão arriscou um banho com cândida. Em vão.

Outros dois garotinhos africanos, contudo, nada tentaram. Afinal, ainda não entendiam muito bem a problemática no País. Trazidos da África pelo pai, mal falavam o português. Certo dia, ao chegarem da escola, questionaram o progenitor:

-Pai, o que significa macaco?
-Filhos, qual o motivo da pergunta?
-É assim que nos chamam na escola.

Triste para alguns (quem dera fossem muitos), normal para outros. Infelizmente a temática do negro no Brasil ainda está ausente nessas e em quase todas as escolas. “Não é fácil definir quem é negro no país”, declara o antropólogo Kabegele Munanga, professor-titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista concedida à Estudos Avançados e reproduzida pelo site Geledés Instituto da Mulher Negra.

Munanga também é vice-diretor do Centro de Estudos Africanos e do Museu de Arte Contemporânea da USP. Nascido em 19 de novembro de 1942 no antigo Zaire, foi o primeiro antropólogo formado na então Université Officielle du Congo, em Ciências Sociais (Antropologia Social e Cultural).

O antropólogo destaca que os estudos da genética, por meio da biologia molecular, mostram que muitos brasileiros aparentemente brancos trazem marcadores genéticos africanos. Ou seja, muitos brancos podem se dizer afro-descendentes. “Trata-se de uma decisão política”, diz Munanga.

“Em um país que desenvolveu o desejo de branqueamento [política governamental do século XIX para trazer imigrantes europeus e evitar a supremacia dos negros, que já somavam mais de dois milhões contra pouco mais de oitocentos mil brancos] , não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não.

Assim, Munanga explica que a questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos de negro e de branco têm um fundamento etno-semântico, político e ideológico, mas não um conteúdo biológico. Politicamente, os que atuam nos movimentos negros organizados qualificam como negra qualquer pessoa que tenha essa aparência. É uma qualificação política que se aproxima da definição norte-americana. Nos EUA não existe pardo, mulato ou mestiço e qualquer descendente de negro pode simplesmente se apresentar como negro. Portanto, por mais que tenha uma aparência de branco, a pessoa pode se declarar como negro.

No contexto atual, no Brasil a questão é problemática, porque, quando se colocam em foco políticas de ações afirmativas – cotas, por exemplo -, o conceito de negro torna-se complexo. Entra em jogo também o conceito de afro-descendente, forjado pelos próprios negros na busca da unidade com os mestiços.

“Se um garoto, aparentemente branco, declara-se como negro e reivindicar seus direitos, num caso relacionado com as cotas, não há como contestar. O único jeito é submeter essa pessoa a um teste de DNA. Porém, isso não é aconselhável, porque, seguindo por tal caminho, todos os brasileiros deverão fazer testes. E o mesmo sucederia com afro-descendentes que têm marcadores genéticos europeus, porque muitos de nossos mestiços são euro-descendentes”, diz Munanga.

Esses são conhecimentos essenciais para qualquer grade escolar. Quem sabe assim alguns negros deixem de tentar clarear os braços e outros brancos passem a clarear suas mentes?


Respostas

  1. Maravilhoso o post, Amanda. E que assunto complexo! Ainda bem que as escolas vão ser obrigadas a ensinar sobre a história da África. demorou…

  2. Boa lembrança Natália ! Tentei buscar como está essa situação hoje. Em 2006 a lei ainda estava no papel e a História da África ainda estava ausente na grade curricular das escolas públicas. Veja essa matéria http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=12889&editoria_id=5. Se alguém souber mais sobre o assunto, por favor, compartilhe.

  3. O problema todo é a falta d educaçao, imprescindível para um posicionamento político adequado. Este assunto não foi digerido em nossa sociedade… o negócio é falar, falar e falar

  4. O certo no Brasil era ter uma educação descente para todos, não importando se é negro, branco, amarelho, vermelho. ‘Catalogar’ as pessoas não vai resolver nada. Cotas são medidas de curto prazo e discriminativas, na minha humilde opinião.
    Queria ter tanta gente discutindo a eduçação fundamental básica da mesma maneira que discutem-se as cotas…

    Bjos, belo post!
    Como sempre…

  5. [...] Em uma outra época não muito distante, outra criança com a mesma pretensão arriscou um banho com cândida. Em vão. Leia +. [...]

  6. A discussão sobre a questão do negro no país não avança, porque para muitos “críticos” nesta terra não há racismo. Assim sendo, não há o que discutir. Afinal, aquelas crianças que sangram seus corpos na tentativa de ter uma pele mais clara e, consequentemente, serem mais aceitas, certamente não vão conversar sobre sua baixa auto-estima com esses “estudiosos”. Tampouco, os alunos negros que abandonam o colégio logo nos primeiros anos da vida escolar vão às casas dessas pessoas para contarem os xingamentos e as humilhações que sofreram. E olha que nem vou citar a problemática da mulher negra…

    Tudo isso, infelizmente, é apenas um lado desse tema tão pertinente na sociedade brasileira. De fato, ser negro é uma questão política. Mas enganam-se aqueles que pensam que agora todo mundo vai querer se autodeclarar negro para se beneficiar com cotas ou qualquer política de ação afirmativa. E a resposta é obvia: Ninguém vai querer ser o que não presta, não é mesmo?

    Obs: Parabéns pelo post. São pouquíssimas pessoas que se ocupam a escrever com tanta seriedade e preocupação com a veracidade. Obrigada por ser uma delas.

  7. adorei..os meus colegas de sala mim chama de GALINHA PRETA so por que eu sou morena neim preta eu sou .
    triste .

  8. [...] Um branco pode ser negro. Não é uma questão biológica, mas política Pena de morte: o peso do julgamento O texto fala sobre política. Desafio você a lê-lo até o final [...]

  9. [...] Leia também Casamento gay: medicina x religião Um branco pode ser negro. Não é uma questão biológica, mas política [...]

  10. Definir uma pessoa como afro-descendente é evidentemente um equivoco. Pois apesar dos negros serem maioria na Africa eles não são a totalidade, sendo assim a brancos na africa.
    O texto foi muito esclarecedor, Prof. Munanga enquanto discutirmos o preconceito desatrelado do respeito as diversidades nas cadeiras da escola, estaremos segregando ainda mais os grupos étnicos, religiosos, sexuais, e outros. Respeito é a base da interação entre as pessoas, portanto qualquer que age de forma contraria deve ser punido, pois fere diretamente a constituição brasileira.
    Parabéns Prof.

  11. Alcebiades, realmente essa questão também existe. Acho que isso ocorre pelo fato de que 99% dos africanos no país são provenientes da reigão subsaariana.

    Conheço muitas pessoas de aparência européia que se declaram como afro-descendentes em programas de cotas, e assim deve ser. Qualquer pessoa que tenha influência subsaariana na àrvore genealógica é considerada afro-descendente. Portanto, temos uma enorme colônia de afrodescendentes de todas as raças e cores possíveis no Brasil. Essa é a cara do Brasil, não tem uma. O estranho é o título do post que contradiz com o texto.

    Mas esse conceito de cor de pele também deve ser desmistificado, negro é raça, e raça está além da cor da pele. Caso contrário, a maioria dos Beduinos seriam negros, ou alguns armenianos que nascem com pele escura com pais brancos também. Sem falar dos ciganos, curdos, tatas e outras etnias da eurasia. Essa confusão vai longe, até hoje estão discutindo se os egípcios eram negros ou brancos.

    A história negra ensinada na escola deveria ir além da escravidão, a história negra não se restringe aos costumes tribiais. Deveriam pelo menos citar os impérios núbios, de axum, somali, os reinos da Eritreia e a riqueza histórica da Tânzania. Só as conheço graças aos livros e a internet, esses conhecimentos nunca foram se quer levemente citado dentro da escola. Provavelmente há muitos mais e eu ainda não sei, essa ignorância do continente africana é muita intensa na sociedade, e considerando o descaso dos governos africanos em preservar a história, o comportamento é o mesmo naquele continente.


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